'O feminicídio gera órfãos como eu todos os dias': como irmãos que viram mãe ser assassinada e foram baleados pelo próprio pai lutaram durante 20 anos por Justiça

  • 19/08/2026
(Foto: Reprodução)
'O feminicídio gera órfãos como eu todos os dias': como irmãos que viram mãe ser assassinada e foram baleados pelo próprio pai lutaram durante 20 anos por Justiça Zaldo Just / Acervo Pessoal Zaldo Just Neto tinha apenas 2 anos e 8 meses quando seis tiros determinariam como seria a sua vida dali pra frente. Um atingiu o seu rosto enquanto brincava no chão; um segundo, o ombro da sua irmã; mais um, as costas do seu tio; e os outros três a cabeça de sua mãe, Maristela, então com 25 anos. Irmãos lutam para manter o próprio pai na cadeia Era uma noite de outono em Jaboatão dos Guararapes, cidade do Grande Recife, em abril de 1989. O pai de Zaldo, José Ramos Lopes Neto, sem aceitar o fim do relacionamento, pediu para se reunir com a ex e os filhos. Trancado dentro do quarto da casa dos ex-sogros, cometeu o feminicídio e as três tentativas de homicídio. Zaldo, hoje com 40 anos, não lembra daquela noite. Mas carregou no corpo e na mente as sequelas daquela bala. O tiro disparado pelo próprio pai causou uma grave lesão neurológica, que comprometeu o desenvolvimento motor de todo o lado esquerdo de seu corpo. Até hoje, sente tonturas e pequenos esquecimentos temporários. "Fiquei órfão da minha mãe, consequentemente do meu pai. Tornei-me uma pessoa com deficiência física por conta daquele que era para cuidar de mim, mas tentou me assassinar", relata Zaldo em entrevista à BBC News Brasil. O assassinato de Maristela Just se tornou um dos casos de feminicídio — quando nem havia esse crime tipificado — mais famosos em Pernambuco. E é também um caso símbolo de como a Justiça no país pode demorar. Entre o assassinato e a condenação de José, em 2010, passaram-se 21 anos. A prisão demoraria ainda mais dois anos para acontecer, em 2012. Hoje, ele cumpre pena em casa. Zaldo e sua irmã mais velha, Nathália, lideraram ao longo de sua vida a luta da família pela prisão do próprio pai — a quem ele costuma se referir apenas como "genitor". Enquanto viravam adultos, mobilizavam protestos, blogs e entrevistas nos jornais locais para que o caso de Maristela não caísse em esquecimento. Formado em direito, profissão que escolheu porque via na Justiça uma possibilidade de acerto de contas, Zaldo acaba de lançar Além das Cicatrizes (publicado com apoio da Cepe Editora), livro em que revisita a tragédia familiar ao mesmo tempo em que reflete sobre os traumas permanentes na sua vida e na daqueles que perderam as mães de forma violenta. "A sociedade ignora o impacto geracional que esse tipo de crime vai trazer para o país", afirma ele. "São 37 anos desde o assassinato da minha mãe, no mínimo duas gerações novas cresceram, e os números só aumentam. A gente precisa enraizar na sociedade alguma maneira de conscientizar, porque todo dia morrem mulheres dessa forma." No último dia 7 de agosto, o Brasil celebrou um avanço no combate à violência doméstica: os 20 anos da Lei Maria da Penha, que marcou avanços legais e na percepção social sobre a violência doméstica no país. Ela foi batizada em homenagem à cearense Maria da Penha Fernandes, que sobreviveu a duas tentativas de homicídio cometidas pelo próprio marido, Marco Antônio Heredia. O Ministério da Justiça divulgou que, de janeiro a junho deste ano, o número de medidas protetivas devido a lei foi de 337 mil, o maior da história. Apesar do avanço na proteção, casos como de Maristela seguem, como Zaldo diz, gerando "órfãos como ele todos os dias". Segundo o Anuário da Segurança Pública, divulgado em julho, os feminicídios no Brasil bateram recorde em 2025. O crime se refere ao assassinato de uma mulher cometido por razões da condição de sexo feminino, ou seja, motivado pela desigualdade, pelo gênero, pelo ódio ou pelo menosprezo à mulher. Foram 1.571 crimes ao longo do ano passado, ou quatro mulheres mortas por dia. A alta foi de 4% em relação a 2024, na contramão da queda das mortes violentas em geral no país. Maristela terminou relacionamento por não ver futuro no casamento Zaldo Just / Acervo Pessoal O dia do crime —- e a espera de 21 anos Naquela tarde de 1989, Maristela Just e seu ex-marido, José Ramos Lopes Neto, se encontraram para levar Zaldo a uma consulta médica no Recife. O casal estava separado havia quase dois anos porque Maristela, então estudante de psicologia, considerava o relacionamento "falido e sem futuro", relata Zaldo no livro. Nesse tempo, segundo a família, José a perseguia e a importunava frequentemente em sua casa, na rua e na faculdade por não aceitar o término do relacionamento. Na volta para casa, José estacionou o carro na praia de Barra de Jangada, enquanto os filhos dormiam no banco de trás. Ele pedia para reatar o casamento. Durante a parada na praia, a filha mais velha do casal, Nathália, então com 4 anos, acordou e viu o pai segurando a mãe pelos ombros e a chacoalhando. Depois, o viu mostrando uma arma, conforme depoimento à Justiça. Ao chegar na casa dos pais, Maristela alertou o pai e o irmão, Ulisses, que o ex-marido estava armado, mas a revista feita pela família não encontrou nada. A arma estava na bota de José. Ele então pediu uma reunião familiar no quarto de Maristela, onde a tragédia ocorreu. Segundo o depoimento de Nathália, o ambiente no quarto minutos antes dos tiros parecia de uma normalidade pacífica. Não havia gritaria ou clima tenso. Maristela estaria de costas para o guarda-roupa terminando de vestir a filha, que dançava em cima da cama usando uma camisola azul-marinho com um patinho amarelo, como relata Zaldo em Além das Cicatrizes. No chão, ele brincava com um cinto de roupa, enquanto o agressor se abaixava para brincar com ele. Subitamente, José sacou a arma e começou a atirar. Os dois primeiros disparos foram contra a cabeça de Maristela. O irmão dela, Ulisses, arrombou a porta do quarto para impedir o assassino, mas também foi atingindo perto da região da coluna. O agressor então se vira para a filha, atingindo-a com um tiro nas costas enquanto ela descia da cama. Em seguida, atira na cabeça de Zaldo, que brincava no chão. "Ele não me deu o direito de seguir com minha mãe nem de seguir ileso", comenta Zaldo. Diante da cena da tragédia, o pai de Maristela, também chamado Zaldo, entrou no quarto e conseguiu render o assassino. José foi trancado no quarto, até a polícia chegar e realizar a prisão em flagrante. José Ramos Lopes Neto passou cerca de um ano preso, até conseguir um habeas corpus impetrado por seu pai, Gil Teobaldo Azevedo, um famoso advogado no Recife. A partir dali, iniciou-se um grande processo de encontrar brechas para adiar o julgamento. Em entrevistas dadas à imprensa local, Azevedo chegou a concordar com o crime, alegando que o filho matou a ex-mulher por ter sido ofendido pela vítima ao tentar a reconciliação. "Se não matasse, não comia na minha mesa", declarou. Também disse que filho não se arrependia do assassinato e criticou declarações públicas feitas pela ativista Maria da Penha. A tese da defesa era de que os tiros contra as crianças e o tio foram acidentais. Maristela e Zaldo Zaldo Just/Arquivo Pessoal Em seu livro, Zaldo fez um levantamento dos 21 anos do processo na Justiça, até o julgamento em 2010. Ao longo de duas décadas, a defesa ajuizou doze recursos principais, arrastando o caso pelas mais diversas instâncias do Poder Judiciário. Além de recursos, a defesa solicitou oitivas de diversas testemunhas que residiam fora da comarca original onde o crime ocorreu, um trâmite que protelava o processo. Também houve o registro de cinco renúncias sucessivas de advogados, abrindo-se novos prazos para compor um defensor. O crime só não prescreveu em 2009 poque o prazo foi interrompido em 2001 pela sentença de pronúncia. O julgamento foi inicialmente marcado para 13 de maio de 2010, mas foi adiado porque nem o réu nem seu advogado de defesa compareceram. Em 1º de junho, a juíza Inês Maria de Albuquerque Alves iniciou o julgamento, ao determinar que defensores públicos assumissem o caso. Como o réu não se apresentou, ele foi julgado à revelia. Nathália descreveu a dinâmica dos fatos e desmentiu a tese da defesa, relatando que viu o agressor mirar em direção a cada pessoa no quarto. Ao final do júri, José foi condenado a 79 anos de prisão em regime fechado, pelo homicídio e três tentativas. Segundo Zaldo, aquele foi o dia "mais feliz de sua vida". Agora no g1 José Ramos foi preso no Recife só em 2012, graças a uma denúncia anônima que informou que ele iria fazer uma visita à família, no Espinheiro, bairro nobre da capital pernambucana. Ele teria se escondido no Piauí, Maranhão e até no Paraguai, segundo disse a polícia na época. Mesmo após a condenação, a defesa utilizou recurso no Supremo Tribunal Federal (STF) em 2014 para tentar anular todo o julgamento, sem sucesso. "Houve a justiça, por mais retardatária que tenha sido", comenta Zaldo. Preso no Recife o acusado de matar a ex-mulher, Maristela Just, em 1989 Dor em luta Zaldo lançou livro 'Além das Cicatrizes' (Editora Cepe) sobre sua trajetória Zaldo Just/Divulgação Adotado por sua tia Marcela, irmã de sua mãe, e seu tio Honório, marido dela, Zaldo lembra que só entendeu o que aconteceu com Maristela por volta dos 10 anos de idade: "Foram colocando os pontos nos is". A sua nova família explicou que suas limitações físicas, alvo de bullying na escola, eram decorrentes do tiro na cabeça dado pelo próprio pai. "Até me aceitar, até aceitar a questão de fato, foi doloroso", lembra. Zaldo começou a lutar ativamente pela prisão do pai ainda durante a sua adolescência. Aos 17 anos, escolheu seguir o curso de direito com o sonho de colocar o assassino definitivamente atrás das grades. Em 2010, antes do julgamento, ao perceber que não havia informações sobre o crime na internet, a irmã, Nathália, sugeriu criar um blog focado no tema, para chamar a atenção da imprensa, da opinião pública e pressionar o Judiciário para evitar que o crime prescrevesse. A autora de novelas Glória Perez, que teve sua filha, a atriz Daniella, assassinada pelo colega de novela Guilherme de Pádua, conheceu a história através do blog e passou a ajudar na divulgação. O caso foi pauta em programas nacionais na TV. Quando o caso subiu ao STF e o ministro relator do caso, Dias Toffoli, acolheu a tese da defesa e proferiu o primeiro voto a favor da anulação do júri, a família entrou em desespero. Zaldo escreveu uma carta pública direcionada à população, pedindo apoio, denunciando as manobras da defesa e expondo as marcas físicas e emocionais que carregava. Ele a a irmã viajaram a Brasília para entregar memoriais diretamente nas mãos dos ministros do STF. Em 10 de fevereiro de 2015, a Primeira Turma do STF decidiu, por maioria de 4 votos a 1, manter a condenação definitiva do condenado. Para Zaldo, escrever o livro foi uma forma de colocar a dor para fora e se curar - além do crime, ele enfrentou problemas de saúde, como um câncer nos testículos. "Com o livro, eu quis dizer a todos que, independentemente da situação que você esteja passando, você consegue sobreviver. Eu carrego a deficiência, eu carrego a orfandade, eu carrego o peso de um câncer. Mas, além das cicatrizes, fiz do luto uma luta", conta. Segundo Zaldo, ele e a família nunca quiseram procurar o assassino condenado nem acompanharam mais o cumprimento da pena. "Somos indiferentes ao seu triste destino que a Justiça tratou de trilhar, afinal qualquer pena é menor que a pena que nos foi imposta: a de viver sem nossa mãe", escreve. Casado e pai de uma filha, ele segue atuando junto ao Centro de Referência Maristela Just, criado em homenagem à sua mãe para oferecer um serviço de proteção à mulher em Jaboatão dos Guararapes, cidade da família. LEIA TAMBÉM: Renata Alves, Mirella Sena e Maristela Just: série ‘Marcas’, da TV Globo, mostra quem eram vítimas de feminicídio antes de virarem estatísticas da violência

FONTE: https://g1.globo.com/pe/pernambuco/noticia/2026/08/19/o-feminicidio-gera-orfaos-como-eu-todos-os-dias-como-irmaos-que-viram-mae-ser-assassinada-e-foram-baleados-pelo-proprio-pai-lutaram-durante-20-anos-por-justica.ghtml


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